Ela não é minha.

"mas para mim, bom é estar perto de Deus" Sl. 73:28


Era quinta-feira à noite e eu arrumava a mala dela aos prantos, logo depois de a ter colocado no berço para dormir. Como de costume, já tinha chorado um bocado no chuveiro, mas eu não consegui conter o restante das lágrimas, nem tampouco esperar até o próximo banho, doía um tanto considerável.
No domingo anterior estava sentada com meu marido enquanto ele procurava a passagem do próximo final de semana. Um compromisso demandava que ele estivesse em Curitiba no sábado durante todo o dia. Ele sairia então na sexta e voltaria no domingo. Até aí tudo normal, sou mais do que acostumada a ausências esporádicas de curta duração.

- Pensei em levar a Ana Luiza comigo.

Eu ri. Até parece. Ela é tão pequena, ela mama, ela não vai ficar sem mim, ela vai chorar, ela vai querer voltar, ela vai me procurar, ela precisa de mim, e se acontecer alguma coisa, Joinville é longe, não consigo chegar em 40 minutos. Até parece. Eram tantos motivos lógicos que se passavam pela minha mente, que eu precisei deixar de enxergar o óbvio. No mesmo instante eu repensei tudo isso e me lembrei de algumas coisas importantes, mas uma delas me acertou em cheio: não foi isso que seus pais fizeram com você.

Quando eu era pequena, meus avós, minha tia e tio moravam em São Paulo. Sabe aquela ansiedade incontrolável por passar uns dias lá? Foram férias que eu nunca mais me esqueci, foram momentos que marcaram para sempre a minha vida porque eu vivia esse relacionamento intensamente, sozinha. Depois, quando morei em São Paulo, minha outra vó morava aqui em Vitória e quando ela estava nos seus últimos dias, meus pais não hesitaram em me enviar pra cá pra estar com ela. São as últimas lembranças que eu tenho dela, deitadas juntas na cama, conversando, rindo...Mudei o discurso.

- Tudo bem, vai ser importante pra ela, pra sua família, pra você...eu entendo.........
- Tudo bem mesmo? Me preocupo com você...
- Vou ficar em um estado emocional deplorável por três dias, mas vou sobreviver.
- Vamos fazer assim, eu compro a minha passagem e incluo ela, mas se a gente ver que não vai ser legal, eu não levo.

Muitas coisas se passaram na minha cabeça em instantes. Todas as recomendações que eu deveria enviar, tudo que poderia dar errado e todas as soluções, tudo que ela poderia estranhar e como resolver. Em 10 minutos falei de todas elas e ele só me olhou:

- Você realmente pensou em tudo agora???

Lógico que sim! Eu sou mãe! HELLO!!! No meio das emoções surgiu a oportunidade de eu ir junto também, mas ouvi que era melhor não, afinal eram SÓ três dias, não tinha passeio, ia ser muito rápido, era melhor ele ir sozinho com ela. Entendi o recado que veio através dele. Tentei não pensar mais no assunto naquele dia, mas inevitavelmente algumas coisas martelavam na minha cabeça: ela não é sua, ele é tão pai quanto você é mãe, você não pode reclamar direitos sobre o que você diz não ser seu...

Ao longo da semana fui orar. Pedia ao Senhor que, se fosse ser uma experiência ruim pra ela, pra por favor tirar a ideia da cabeça dele. Não enxergando resultados palpáveis, na quinta eu já estava implorando. Ele não desistiu, era hora de arrumar a mala, ela realmente iria.

Mandei uma mensagem pra algumas amigas e uma delas me dizia que esperava que o Senhor me desse graça e me ensinasse a remir o meu tempo, pra proclamar, socorrer os irmãos... Fiquei com aquilo no coração, que estava despedaçado naquele momento, mas precisava terminar de arrumar as coisas e pedir mais um pouquinho, quem sabe. Às quatro da manhã acordei com a movimentação. Vi que realmente estava acontecendo e que eu teria que mudar minha estratégia, comecei a pedir então que o Senhor acalmasse o meu coração, que a minha alma se aquietasse. Dei mama pra ela na minha cama e notei que ela não estava entendendo nada, afinal estava tudo esquisito. Ela terminou e a entreguei pro pai. Eles foram de táxi, pois seria muito pior se eu os levasse. Quando saíram, me levantei, fui até o quarto dela, peguei o travesseiro e vim aos prantos. Que dor. Aquieta minha alma. Dormi.

Quando acordei, peguei o celular e fui contar a novidade no grupo das minhas amigas mães. Iniciamos uma discussão maravilhosa sobre o assunto. Fui muitíssimo encorajada pelas minhas irmãs, que já no início do dia me injetaram uma dose fortíssima de colírio para que eu pudesse enxergar além. Imagina quão maravilhoso vai ser contar para ela da viagem que fez sozinha com o papai, de como ele cuidou dela, de como eles se aventuraram juntos, de como ela aproveitou. Que melhor investimento para o relacionamento pai x filha poderíamos dar se não tempo e disponibilidade? Fui muito encorajada por outras irmãs que já passaram pela mesma experiência e que viram frutos maravilhosos. Finalizei lendo uma mensagem que guardei para ler e reler:

“Irmãs, o relacionamento dos nossos filhos com os pais vai ensiná-los a se relacionar com Deus quando chegar o tempo. É agora que eles vão aprender a confiar, obedecer sem questionar e se entregar aos cuidados do pai. Não podemos nos conformar com este mundo e acreditar que cuidamos melhor que eles. Nossos maridos tem a Cristo, é tudo que eles precisam para saber o que fazer. Porque eles vão ensinar aos nossos filhos quem é nosso Pai do céu. Precisamos ensinar nossos filhos a olhar para seus pais com confiança. Por certo que isso começa em nossos procedimentos, inclusive no jeito que olhamos para eles. Se confiamos neles ou não. PS: sentir saudades de apertar o coração faz parte, né! Hehe afinal de contas, somos mães!”

Foi então que me propus a gastar o máximo do meu tempo com os irmãos, fazendo o que provavelmente, seria mais complicado de fazer se estivesse com ela. Poderia ter tirado três dias só pra descansar e fazer coisas pra mim, mas esse não era o tempo para isso.

O resultado foi um final de semana INTESO, de comunhão intensa, de oportunidades que eu agarrei com unhas e dentes porque sabia que elas haviam sido planejadas não por mim, que sou metódica esquisita e anoto tudo, mas por quem sabe melhor do que eu o que eu preciso.

Não fiz uma refeição sozinha (eu detesto comer sozinha). Aliás, assei um bolo com uma irmã preciosa e compartilhamos sobre a profundidade das coisas que Deus está fazendo em 2015 nas nossas casas. Estudei um capítulo de um livro (assim, no sentido literal da palavra) com meus irmãos e para que fosse ainda melhor o capítulo era sobre ansiedade. Tomei café com a minha mãe com bastante calma em um lugar super movimentado, conversando sobre muitos assuntos. Participei por completo da reunião da igreja no sábado à noite (geralmente a gente trabalha com revezamento de períodos..rs..) e fui profundamente edificada com a palavra compartilhada. Salmo 73, parte a do versículo 28: “mas para mim, bom é estar perto de Deus”.  Em determinado momento, ouvi (de quem vive isso na prática) que precisamos deixar ir nossos filhos, para que eles possam viver o que Deus tem para eles. Precisamos deixar ir nossos amigos, nossa família, precisamos formar pessoas em Deus e liberá-las para que elas possam ir e frutificar, porque bom é estar perto de Deus. 

Naquela madrugada o pai de uma das minhas amigas-mães-irmãs, faleceu. Esperávamos por aquele momento e como eu agradeci ao Senhor por ter sido neste final de semana. Pude servir na casa dessa amiga, a sua família, que TANTO serviu ao Senhor. Era o mínimo do mínimo que eu poderia fazer. Me senti profundamente honrada e agradecida. Terminei a tarde com um café na casa que está sempre pronta a me acolher, receber e alimentar: a da minha vizinha do nome lindo e do coração mais lindo ainda.

Com a correria o dia passou e eu não vi. Quando me dei conta, estava indo rumo ao aeroporto com as mãos transpirando buscar meus dois amores. Cheguei mais cedo (coisa rara) e fiquei na expectativa. O reencontro foi com lágrimas, alegria, gratidão, amor e claro o pedido que não esperou 2 min “mamá mamãe!”.

De lá fomos direto para o velório. Ele foi o primeiro presbítero a dormir. Um misto de alegria e de dor pela partida. No meu coração apenas gratidão por ver uma família convicta de que aquele homem de Deus cumpriu o seu chamamento e descansou, deixando para trás sua marca e linda história.
Ao chegar em casa, com um bebê apagado foi hora de compartilhar com o marido tudo que Deus havia falado ao meu coração naqueles dias e me alegrar em saber que, o Senhor faz muito mais do pedimos, pensamos ou imaginamos. Mas é preciso ouvir a Sua voz e atender ao Seu chamado.

A Ana Luiza não me pertence, quero e preciso me lembrar disso sempre. O pai dela é tão pai quanto eu sou mãe e cuida dela de modo excelente e até melhor que eu em muitos aspectos. Para chegarmos ao ponto da viagem, já vínhamos trabalhando confiança e cuidado há muitos anos, mas intensamente desde a gestação, passando pela profunda experiência que dividimos no parto e toda a trajetória que se sucedeu, de um homem que ama, cuida e participa ativamente, diariamente. Existem muitas coisas que vão além do nosso entendimento limitado e terreno, mas podemos ampliar nosso campo de visão quando olhamos para nossos irmãos e recebemos o que eles também estão vendo de diferente. Servir é maravilhoso, na dor ou na alegria. Estar em meio a uma família de muitos filhos é precioso. Poder viver família com meus irmãos é uma das coisas mais importante que tenho na vida e quero sempre valorizar esse favor não merecido. Remir o tempo. Proclamar. Socorrer os irmãos.

Obrigada à todos que, de alguma forma contribuíram para que este final de semana fosse tão diferente, tão intenso, tão precioso. Cientes ou não.

Eu sei que talvez, para muitas pessoas esse texto não faça muito sentido, mas sei que para outras tantas fará. O importante é que a experiência seja dividida, este era o propósito.  


Comentários

  1. Como sempre, me emocionei com suas palavras! ❤

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    1. Lindeza! Será que a gente se encontra naquela piscina esse verão?! Hahahaha 😘

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  2. Lindo texto Karol
    Estou aqui escrevendo e apagando tentando,descrever oque estou sentindo diante dessa história emocionante,Ler isso me proporcionou imaginar como seria meu tão sonhado bebe viajar sem mim,confesso que quando comecei a ler achei meu louco pensei "Como assim,ela uma mãe super atenciosa,presente e dedicada vai deixou a sua pequena viajar com o pai sozinha??" Ai eu comecei a entender o lado espiritual da coisa,quando Deus quer nos ensinar algo as vezes precisamos negarmos a si mesmos,negarmos nossa vontade,sei que deve ter sido um final de semana muito doloroso para Voce "MÃE" mais também muito produtivo como "Filha do Pai",como irmã da fé; E Deus nos chamou para isso ajudar ao próximo,e acho que não existe sensação mais gratificante do que saber que pode fazer alguma coisa,que pode ajudar,sensação de dever cumprido!
    Parabéns por ser essa super mãe,que soube fazer o melhor por sua filhota,saiba que me inspiro muito em voce, me emociono so de imaginar um dia poder também compartilhar esse momento com meu esposo,poder ter essa coragem, e principalmente confiança de que tudo vai dar certo Deus vai estar com eles,e ele cuidará muito bem do nosso(a) filho(a)...
    Quero te agradecer por mais uma vez compartilhar essa experiencia!
    Deus falou comigo nessa palavra, Ter paciencia e confiar nele que tudo da certo,que a sua vontade é boa perfeita e agradavel....

    Muuito abrigada e um super Beijo fica com Deus

    De sua super admiradora!!
    Heloisa Lucinda

    heloisa_bbs02@hotmail.com

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    1. Oi Heloisa! Que legal a sua mensagem, adorei! Tenho certeza que se falou com você de modo tão profundo, é porque não vem de mim. Sou bem falha, tenho tanto a alcançar, mas pela graça vamos caminhando, certo? Espero que este momento também chegue pra vocês, que você possa confiar no seu esposo e viver estas experiências tão marcantes, mas acima de tudo, que vocês vivam de fato a boa, perfeita e agradável vontade do Pai!

      Um super beijo!!!

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  3. Oi Karol aqui é a ana
    Bem eu gostaria de saber o q ela mamou lá? Leite em po, de cx ou do peito congelado? Fora isso o que vc vai dar qdo desmamar? Eu to dando de cx, mas nao sei o q fazer, obrigada

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    1. Oi Ana! Não tomou nenhum tipo de leite :) Ela faz todas as refeições normalmente, o leite só complementa, por isso não enviei nada. Quando ela desmamar, não pretendo oferecer leite animal, pois sei que ele é totalmente dispensável e não traz benefícios justificáveis... Espero ter ajudado! Bjs!

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  4. Oi Karol!! Estou grávida de 5 meses, do Pedro. Hoje assistindo vídeos sobre partos, achei o seu e aí cheguei no blog! Que benção poder achar um cantinho de uma mãe cristã! Tem muito material na internet mas poucos que compartilham uma visão de Filha do Rei! Oro para que mais e mais mulheres cristãs escrevam o possamos semear cada vez mais o amor do Pai usando a rede online!
    Esse texto falou muito comigo, principalmente a mensagem sobre o relacionamento dos filhos com o pai. Tenho um lido um livro chamado PATERNIDADE BEM RESOLVIDA - autor Fabiano Ribeiro - que trata exatamente sobre a falha nessa relação familiar e como isso pode nos afetar em relação à Deus!
    Obrigada por compartilhar suas emoções! Depois de ler seu blog, me senti inspirada!

    Deus abençoe muito sua família e derrame cada vez mais sabedoria sobre vocês dois como pais!

    Um grande beijo

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    1. Oi Vanessa! Seja bem-vinda e por favor me perdoe a demora em responder...eu tento! rs..
      Tem muita coisa sobre maternidade na internet, é verdade e pouco conteúdo com o qual podemos nos identificar (analisando as devidas proporções)! Comentava com algumas amigas que, fico assustada como as pessoas aceitam conselhos e tomam por verdade, coisas ditas por pessoas que elas se quer conhecem. Assusta um pouco... eu falo pouco sobre criação de filhos porque eu sei bem que os meus princípios são completamente contrários ao curso deste mundo. Me propus a oferecer um conteúdo (principalmente no Youtube) que seja de fácil assimilação por todas as mães e que traga informação e também entretenimento, mas criação de filhos é muito...muito sério e eu prefiro que as pessoas convivam comigo, frequentem a minha casa, conheçam a minha família pra opinar ou dizer algo (e vice versa)! Tenho o grande privilégio de conviver com irmãs que me ensinam principalmente com a vida delas e isso pra mim vale mais que qualquer teoria moderna. Aqui no blog venho de vez em quando escrever umas reflexões, porque gosto muito e é um cantinho para qual eu fujo quando preciso espairecer..rs..
      Vou dar uma pesquisada neste livro que você comentou! Muito obrigada pelo seu comentário, bom ter você aqui! Que o Pedro seja motivo de muitas e muitas alegrias!!!!! Beijos!

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