Vida de mãe | Violência obstétrica no pós-parto, sim senhor!



Esperei todo este tempo para escrever sobre o assunto, pois eu precisava resolvê-lo em definitivo antes. Pensei que para escrever aqui eu deveria ter um problema, mas também apresentar uma solução, certo? Escrever por escrever seria inútil, mas escrever e ter a luz no fim do túnel seria de alguma forma colaborar com alguém em algum do lugar do mundo que talvez passe por situação semelhante.

Durante a gestação eu ouvi e li muitas histórias sobre violência obstétrica. Hoje em dia o tema está em voga e muita mulheres sofrem com este problema há anos. Mas afinal, o que é isto?

Aqui vão dois trechos claros:

Muitas parturientes não sabem dos seus direitos no pré-natal, na hora do parto e no pós-parto e constantemente sofrem com agressões físicas ou emocionais por parte dos profissionais de saúde.É considerada violência obstétrica desde a enfermeira que pede para a mulher não gritar na hora do parto normal até o médico que faz uma episiotomia indiscriminada [...]. (FONTE)
É violência: a ofensa verbal, o descaso, o tratamento rude, as piadinhas, os gritos, a proibição da manifestação das emoções, as violências físicas de todos os tipos, a obrigatoriedade de uma determinada posição, os apelidinhos, a contenção dos movimentos – como divulgado com cada vez mais frequência entre as mulheres detentas, que precisam parir algemadas -,a humilhação intencional e todo tipo de atitude torpe que, sim, acontece. (FONTE)
Meu parto foi maravilhoso, lindo, único...meu Deus, um presente divino! Eu me senti completamente feliz e maravilhada por ter conseguido fugir da possibilidade de sofrer violência obstétrica durante o parto. Eu realmente não sabia qual seria a minha reação se, de alguma forma me tolhessem ou fizessem algo do qual eu não estivesse de acordo, vulgo uma episiotomia, um sorinho, etc. Mas nem tudo são flores...

Quando foi a hora de ir ao médico, após os 40 dias de resguardo, me vi meio perdida e marquei com um médico com quem eu havia me consultado durante o pré-natal. Total cesarista, mas foi muito honesto comigo e até me deu bons conselhos, como ficar em casa o máximo de tempo, ir para tal hospital e evitar outro e achei até digno quando disse que não faria toque durante a consulta pois não havia necessidade. Na minha pressa, marquei com ele mesmo. Eu estava ansiosa para ver um médico, saber se estava tudo bem. Todo mundo gosta de sentir-se seguro e, no puerpério, faz MUITA diferença.

Lá fui eu inocentemente.

Ao chegar na consulta ele me perguntou se eu tinha conseguido o parto normal e eu disse que sim com um enorme sorriso. Depois ele me perguntou aonde tinha sido e eu disse "vila velha". Ele me questionou se havia sido no hospital Vila Velha e eu, não menti e disse a verdade, que havia sido na minha casa em Vila Velha. O semblante dele mudou na hora.

40 dias. Eu havia recém parido. Estava naquele turbulento momento do pós-parto aonde você acha que até a sua cadela cuida melhor dos filhotes do que você, uma mãe de primeira viagem, inexperiente, que não sabe mais o que faz pro bebê não chorar, com os seios em carne viva porque estava fazendo das tripas coração para amamentar decentemente o seu bebê. Completamente fragilizada emocionalmente e desesperada por uma opinião profissional, pelo menos, respeitosa. Não precisava de caridade, apenas respeito.

Lá fui eu deitar na maca. Meu pesadelo começou.

Ele me fez algumas perguntas quanto ao parto e enquanto eu respondia ele falava pro meu marido que eu era louca.

Depois, foi completamente grosseiro para realizar o exame, do tipo "isso é o que você merece por ter tido filho em casa sua doida". Tão grosseiro que eu questionei se era normal sangrar e ele disse que sim.

Com todo descaso, rispidez e falta de qualquer senso, ética ou gentileza ele me examinou fisicamente e me olhou com arrogância, desprezo e disse:

"Tá vendo aqui? Esse é o problema do parto normal! Você nunca mais vai voltar a ser a mesma. " (fazendo uma referência fisiológica e com estas exatas palavras)

Eu suava frio. Como assim? O que deu errado? Todo mundo diz que volta! Meu Deus e agora?

Eu só pensava que meu marido estava ouvindo aquilo e eu queria morrer. Como assim nunca mais serei a mesma?

Ele falou umas três vezes que meu corpo não voltaria ao normal que eu ficaria daquele jeito pra sempre e pra finalizar com chave de ouro falou pro meu marido que ele é que veria a diferença.

QUARENTA DIAS! Mortos de cansaço, inseguros, eu sofrendo e chorando pra amamentar. Virando madrugadas. Cheia de incertezas. Puérpera insegura e ansiosa. QUARENTA DIAS!!!!!!!!!!!

Eu saí de lá ARRASADA. Eu quis morrer aquele dia. Não sei ser mãe, não dou conta da minha casa, Deus eu não nasci pra ser mãe e bom...acabou o ser esposa. Eu fechei a porta do consultório e desabei. Chorei aquela noite inteira. Olhava pra Ana Luiza e chorava copiosamente. Quis me esconder do meu marido que, amorosamente me abraçava e me pedia um pouco de calma......

Tentei manter a calma e pensei que deveria ouvir outra opinião.

Quando a Ana Luiza completou dois meses, viajamos para o sul. Foi quando tive a brilhante ideia de marcar uma consulta com meu antigo médico, que apesar de ser cesarista assumido, apoiava a ideia do parto normal e é um médico gentil e que me passava confiança. No dia da consulta, não contei a ele que tinha tido um parto domiciliar, apenas que tinha tido um parto normal.

Lá fui eu pra maca de novo.

Dessa vez, com um profissional que honra o juramento que fez. Ele foi extremamente paciente no sentido de me explicar absolutamente tudo de um pós-parto. Me examinou fisicamente e disse estar tudo ótimo. Depois, sentou comigo e com meu marido e começou a falar sobre hormônios, lactação, líbido, sono do bebê, etc... Esclarecedor, gentil, profissional e ético. Saí de lá com outra perspectiva, feliz e segura. Está tudo bem. Respirei aliviada.

Ao longo do tempo eu vi a natureza operar a sua sábia mágica. Tudo volta ao seu devido lugar (tá bom, talvez a barriga e o umbigo demorem mais...rs..), mas de resto, sim! A vida continua igual, ou até melhor. O empoderamento vai além do parto, muito além...

Hoje foi dia de preventivo. Marquei com outro médico, obviamente. Sorri um enorme sorriso quando ao final do exame ela me disse que estava tudo ótimo e que nem parecia que eu tinha tido um parto! "Eu sei!" eu pensei rindo... Saí aliviada e com muita vontade de voltar aquele médico e costurar a língua dele... :)

Na época, eu sei quão destrutivas foram as palavras daquele que se diz um profissional obstétrico. Foi uma experiência terrível, que eu não desejo à ninguém, mas que infelizmente É REAL, corriqueira e traz marcas que só quem vivencia, compreende sua amplitude. Estima-se que uma a cada quatro mulheres sofre violência obstétrica durante o parto, mas ela pode acontecer no pós-parto também.

Desejo à você que consiga driblar esta triste estatística e que, se for o caso, faça a sua denúncia e colabore para o fim desse trágico cenário. Contudo, queria deixar aqui o meu relato e experiência de um final, muito feliz, obrigada. Informação, calma e bons profissionais podem ser cruciais neste momento. Se você sofreu uma experiência semelhante, saiba que muitas outras mulheres trazem esta marca, seja fisicamente ou emocionalmente e que precisamos falar sobre o assunto. Ele é mais um daqueles assuntos que ficam calados no meio materno... mas acontecem na casa do vizinho também. Sua vizinha neste dia, pode ser eu, mas existe luz no fim do túnel. Fica aqui a minha colaboração.

Um beijo!

Até breve!




As fotos fazem parte de um projeto da fotógrafa Carla Raiter, que abordou o tema com muita sensibilidade, realidade e infelizmente, dor. 



Comentários

  1. Karol, acabei de ler se depoimento.
    Estou na fase de me informar, buscar e sonhar por um parto digno.
    Você está sendo um canal muito importante pras mulheres se informarem. Parabens e que seja abençoada em continuar!!
    Abraços, Amanda
    amandamcoliveira@gmail.com

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    Respostas
    1. Obrigada querida! Informe-se MESMO, busque apoio e experiências de quem já passou por essa trilha. Te desejo um parto maravilhoso, cheio de respeito e que seja uma experiência ímpar! Bjs!

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  2. Esqueci de por meu e-mail: nahalmeida@hotmail.com

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