Vida de mãe: O que você renuncia?





Sejamos honestas, tudo mudou após a maternidade. Do seu cabelo à maneira como você se relaciona com as pessoas, tudo de alguma maneira foi atingida por essa nova pessoa na qual você se transformou.

Para algumas a carreira foi para o espaço, para outras agora é preciso conciliar e administrar psicologicamente os dois papéis sem a famosa culpa, outras tiveram que largar os estudos, outras ainda viram o casamento mudar abruptamente e tem aquelas que experimentaram a sensação de deixar-se de lado para cuidar de outra pessoa totalmente dependente, algo completamente novo. Alguma coisa mudou e incomodou, alguma coisa fez com que você precisasse se resolver consigo mesma para seguir adiante ou, talvez você esteja lutando com este acerto próprio de contas, mas é fato, você não é mais a mesma.

E agora?

Com toda sinceridade, pra mim tudo mudou, mas o que mais trouxe impacto no meu dia a dia foi abrir mão da minha liberdade e independência.

O casamento nunca me restringiu muita coisa, muito pelo contrário. Tanto meu marido como eu, gostamos muito de liberdade e independência e juntamos a fome com a vontade de comer e criamos um estilo de vida muito...nosso. Não tenho como colocar de outra forma, a verdade é que aproveitamos MUITO nossa fase solo. Viajar, sair, curtir finais de semana, programas de índio...a gente fazia mesmo o que dava na cabeça do jeito que dava e gostávamos dessa logística de vida. Quando falávamos em filhos, sempre, sempre, sempre (enfatizei o suficiente?) nos cobrávamos um trato: seríamos pais descomplicados que não deixam de viver a vida por conta dos filhos.

Eu tinha verdadeiro pavor de ver aquelas mães que depois que tiveram os filhos pareciam que tinham aberto mão de viver, que nada mais era possível por causa do "Juninho". Eu dizia "eu não! comigo não!" E aí eu me tornei mãe.

A minha dita liberdade e independência, livre escolha de horários, programações diversas e vida social intensa, foram colocadas em uma sacola e atiradas lá pro meio do mar e isso me doeu muito.

Mas por que?

Porque eu sou egoísta e a minha vida girava em torno de mim mesma. Os meus horários, os meu programas, a minhas vontades, a minha vida. Por mais que eu fosse casada, tivesse um marido, vivesse a dita vida da igreja, convenhamos que estes compromissos, dependendo do grau de envolvimento, podem não requerer de você tanta renúncia e quando você julga adequado, o que não te convém você pode escolher não fazer, não dizer, não ir. Mas como recusar as necessidades do seu filho? Como colocá-lo em standby para saciar as suas ditas necessidades antes das dele? Como tirar um tempo pra fazer o que você bem entende se conflita com o que ele precisa? Não existe. O que existe é renúncia. É negar-se a si mesma em prol de outra pessoa. Interessante, não? Ensina muita coisa, principalmente sobre aquela história de "escolher ser escravo, sendo livre". Mas como é possível?

Por amor.

O que eu renunciei com a maternidade foi a minha "liberdade", minhas mesquinharias e sofri por ter de deixá-las ir, mas me permiti vislumbrar uma nova vida. Uma vida aonde eu faço o possível para estar presente na vida de quem eu amo, uma vida que eu tenho plena convicção das minhas atuais limitações, uma vida aonde eu me esforço para não usar minha filha como desculpa para meu comodismo, uma vida aonde eu testo meus limites e meu jogo de cintura, uma vida à três, que vai se desdobrando a medida que eu me deixo de lado e me doo incondicionalmente.

Sair pra jantar quando bem entender, planejar meu dia de acordo com o que eu queria, viajar sem rumo, dormir sem horários...todas estas coisas eram muito boas mesmo mas eu tive de deixá-las ir. Pelo menos por um tempo, pelo menos da maneira como as conhecia. No meu acerto pessoal de contas, lá no início, precisei me confrontar e enxergar meu egoísmo para deixá-lo de lado. Foi muito difícil me ver tão despida, mas era preciso.

Hoje, eu olho pro meu marido e nós ficamos muito felizes de nos ver como pais descomplicados e que não deixam de fazer as coisas por conta da juninha, mesmo que seja de uma forma diferente do que imaginávamos.

Estamos entrando em uma fase simplesmente maravilhosa, que me faz refletir constantemente sobre o tempo, sobre minha convicções, sobre meu estilo de vida, sobre quem eu sou e quem eu quero ser. Nossa pequena começa cada vez mais interagir conosco, com o ambiente e sua ansiedade por explorar tanta novidade nos tem permitido viver novas coisas. Hoje, eu olho pra trás, pro começo de tudo e penso que passou tão rápido, que eu sofri à toa (ou não). Os lugares estão lá, as oportunidades sempre surgem e a vida pode ser vivida intensamente sim, mas de muitas maneiras. A cada dia, vamos nos descobrindo como família, como indivíduos, vamos experimentando juntos e entendendo que é melhor sermos três do que uma. Descubro diariamente a graça da vida, o prazer nas mínimas coisas e o doce sabor de me colocar de lado e servir incondicionalmente a quem eu amo. Aprendo a cada banho, que os dias são muito curtinhos e que muito em breve eu não serei mais necessária para aquela função, então faço com todo esmero e alegria que me cabe. Vejo a cada refeição que o que eu ensino logo vai ser tornar suficiente para uma autonomia total e eu serei meramente espectadora. Admiro a cada sono um crescimento que assusta e foge totalmente do meu controle e da minha zona de proteção. Me espanto a cada nova demonstração de personalidade própria, que independe de quem eu sou. Me alegro, infinitamente, por saber que eu poderia estar sendo e/ou fazendo muitas coisas, mas escolhi a melhor parte, estar e ser 100% mãe.



E você? O que renuncia?


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Queria dizer que escrevi este texto à partir de algumas observações e reflexões e também depois de conversar com algumas meninas sobre o fantástico mundo cibernético materno aonde todas as mães são lindas, maravilhosas, suas vidas perfeitas, seus filhos sempre felizes e 100%. Essa vida não existe, não acredite nela. Acredite no amor, na dedicação, na renúncia e no reinventar-se a cada dia.













Comentários

  1. Perua,
    Que bom ler sobre isso hoje!
    Tenho meditado muito a respeito. Pois temos metas em Deus como família, sempre dependendo Dele - aguardando Sua decisão -, mas o tempo voa e precisamos nos preparar espiritualmente, mentalmente e fisicamente de maneira que sejamos cooperadores do Seu propósito e vivamos com Alegria, muita Alegria independente do que ocorre em volta!
    Glórias a Deus que nos faz enxergar que é Ele quem nos capacita a toda Boa Obra e à tudo que é Dele. É necessário se entregar e descansar Nele.
    Obrigada,
    Beijinhos =**

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